quinta-feira, 19 de julho de 2012

O HALTERE

     Aquele sol pesado em cima das colinas próximas a fábrica me fazem refletir. Tantos sóis se puseram enquanto eu estava aqui, ouvindo o barulho do ferro derretido. Essa arma silenciadora do sol. Até que adormeci neste trabalho. Até que me desfiz em moléculas. Fabricamos halteres para academias aqui. Todo o meu tempo. Desde que me conheço ( e isso não faz muito tempo), trabalho aqui. E meu salário é água. Abasteço-me com custo a partir dele. E o custo é o preço do nada. É a camerata, a inconsistência. Nada mais. E o peso dos dias sobre mim. O meu passar pelos dias, o meu recompor diante os olhos dos dias. A familiaridade com os olhos de fome. Ah, aqueles pesos. Se tudo aquilo fosse verdade, que meus olhos inflamassem da precisão. E que as samambaias secassem. E que nada mais se ocultasse. A semelhança brotasse nos olhos e se camuflasse em partituras. E que... não sei mais o que dizer. As palavras me faltam como já é costume. Assim como a força me falta para carregar esse fardo inconclusivo a ponto de me pesar. A ponto. A ponto de não me conhecer mais. Mas eu sou o meu próprio disfarce, a ponto dos outros empregados não confiarem em mim. Desconfiando de minha identidade. Os meus muitos mins condensaram em vários eus. É por isso de eu não me conhecer e duvidar do mim mesmo. E não pensem que os halteres não duvidam deles mesmos... seus olhos os condenam, até nada mais sobrar-lhes de obra de arte. Até que evaporo e eles me seguem. Sobem ao ar buscando menos peso e se aconchegando em meu colo. Como se eu fosse suas terapias. Porque o peso é só peso. Mas a leveza, a leveza... não. Ela não tem só um simplesmente. É um comboio desnorteado que vai se subtraindo e adicionando ao contrário do nada. É o contrário do nada o tudo? Sei que me sobrinho está vindo me buscar. O dia de trabalho se acabou, mas me sinto no ritmo. Sinto-me um dançarino com um escudo nos braços e se escondendo atrás de uma porta com dobradiças barulhentas. Esperando por alguma coisa menos tediosa que esperar um pato. E se comover! Chorar sorrindo, esperando um milagre altamente banal para meu ego. Egos sempre foram banais e sempre se corromperam. Deslocaram-se. São ovos inacreditáveis que deslocam. Haverá sempre quem tenha sobriedade, menos os halteres. Eles são as fragrâncias do peso. Recortam-se nas áreas brancas e angelicais. Até o dia em que me comovem. E choro de novo, sorrindo na espera... Esperando e acreditando. Tudo me remove ao poço. Ficou amargurado até dormir e esquecer. E quando durmo tudo vira um candelabro acendido pela metade. Deforma-se ao ponto de não me reconhecer mais. Ao ponto de eu não me ser. De desacreditar em contos de fadas. E me arrepender de novo depois. Até descorar e oferecer um ponto mágico, a segunda chance... E fui discorrendo aprontando ramas de solidão e ascese. Apenas teoria. Um prato poético. Um cálculo aos dimorfismos. E nisso tudo meu zelo. Trabalho desde criança nesta empresa. Desde aqueles primórdios penso em me suicidar. E sempre me arrependo. E sempre sinto vontade. Mas meu medo me choca. Ele me convence a recuar. A desabar-me sobre mim mesmo. Ele me condena a ser. Simplesmente ser o que sou. Isso já me é uma tortura. Não me compreendo quando sou. Apenas tateio em busca de uma névoa que seja um não-mim. E que seja apenas uma névoa descolada do solo e sem lembranças, apaixonada por outro si. Eu sinto a minha própria revolta lutando dentro de mim. Debatendo-se nos espaços mais fracos. E implorando por um pouco mais de solidão e compaixão para com os mortos, que já não podem se defender. E que suas defesas nada mais vogam no mundo dos vivos. É água-viva. Talvez sabonete. Mas o talvez não me recompõe; é como perfume vencido escorrendo no meu pescoço e cheirando a vinagre no meu espírito. Que também nunca acreditei. Porque acreditar chorando é somente para minha carne e nada mais. E minha carne é feliz. E meu espírito é translúcido. Uma coluna grega. A digestão do dia pelo sol. A multidão de anabolismos desaforados. E congregações sedentas por folclores descolados da parede. E a parede? No      que consiste a parede? Ela é um exército? Ela se compromete? Não, ela é mais uma. A inflamação da humanidade, o riso obscuro de escravos sem correntes. E a conversa informal? Um absinto? Um creme de beleza? A absoluta certeza? Se for certeza, faz absoluta! É o convencimento. Um destino arrasado. Uma blusa de algodão... e mais uma quimera dissolvida! Um resto mortal resguardado. Esperando exame para se recompor. E o exame é um quite explorado. É um imperialismo não questionado. Deixado numa agenda velha... para ser lembrado na posteridade. Para ser algum cartão-postal. E absorver almas descumpridoras, almas rebeldes e inflamadas. Copos-de-leite desajeitados em cima do muro da empresa. Sempre os reguei. Ao final da tarde, com o sol me lambendo por último. O ordenado múltiplo das plantas. As plantas são crises existenciais nas praças e nos cemitérios. Elas convencem. As plantas são a catequese. Elas são a invenção humana. O preciosismo. A carne. O conta-gotas. E o vermífugo. Mas meu sobrinho deve ter se perdido. É um rapaz muito avoado. Esquece-se facilmente das coisas quando vê uma garota. Pobre homem será. Vai ser enganado, vai se deixar enganar. Pobre homem. E se enganará com as mulheres e com as plantas.
     Mas meu queixo me devora... sinto as margens plácidas. Sinto a lua de verão me corrompendo. Sinto também o meu eixo de rotação acelerado. Minha computação declamada. Os desaforos. E o incompreensível monumento aos chacinados que nunca verão o monumento. Ele estará à paisana esperando por eles. Enquanto a hora se esvai, deprimindo as legiões e influenciando os galos de briga. Anômalos. Terapeutas. E os aniquilados. E as minorias? E as pernas de pau? E as pneumonias? E os leucócitos? A caixa de ferramentas e as entrevistas com chaves de estrelas nas mãos? Não consigo levantar os halteres sozinho. Sou o exemplo de frangote. Carne moída de frango... absorvida pelos olhos de algum feirante ambicioso. E com óculos de aros redondos. E com bijuterias no pescoço. Com lâminas nos lábios ameaçando a caixa de ovos com meia dúzia. Tudo é ameaçado pelo feirante. E tudo se desfaz nos pulmões do feirante. Ele também acredita chorando. Assim como eu acredito chorando na minha capacidade de levantar um haltere. E me desprender do meu corpo suado e cansado da vida. A vida é um bazar-circo. Perde-se, ganha-se, chora-se e tudo.  Mas nada mais presta depois de se ver a lua no verão. Ela cai e quem a viu cai junto desmontando um quebra-cabeça. E resolve as palavras-cruzadas do jornal. Com a solução da cabeça para baixo na outra folha pingada de chuva. E a solução é uma aleluia. É um correspondente internacional famoso. Ele carrega um bloco de notas preenchido de desgraças. E talvez seja esta minha biografia... e talvez seja esta minha manivela. Vejo meu sobrinho na linha do horizonte caminhando com uma rapariga.  Talvez essas palavras também me saiam tremidas... Estou nervoso pelo meu sobrinho. Um catálogo de informações se sobrepõe. Do tamanho da Oceania. E com taças de vidro. E com pratos de porcelana pintada por minha mãe. E o livro de dois volumes. E a voz de minha mãe. E meu sobrinho caminhando para me buscar. Ele está sorrindo. E a namorada lhe segura às mãos com força. Eu seguro as minhas. Ele está próximo demais. Vejo a luz do sol de uma praia paradisíaca. E mais próximo. Eu posso sentir o cheiro da Lua. Eu posso senti-lo. Ele está na hora de dizer-me sim. Está. E lá vou eu: SIM. SIM.


18 de julho de 2012

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